Anônimo
- Barrinha ou amendoim?
- Quero nada não. Obrigado.
Era o terceiro vôo que Nicolas fazia naquela semana. Estava louco para voltar pra casa, mas ainda havia muito trabalho pela frente. Bem-vindo a Curitiba. Bem-vindo a Recife. Bem vindo a Palmas. Bem-vindo ao mundo corporativo, Sr. Nicolas. A rotina agora era essa. Um terno amarrotado, um laptop, uma mochila e... uma caixa vermelha.
- O que essa caixa está fazendo embaixo do meu paletó?
- Por favor, essa caixa é sua?
O senhor sentado à janela fez que não e voltou a cochilar.
Nicolas não lembrava de ter visto ninguém sentado na poltrona do meio. O velho na janela, ele no corredor... de quem seria então a caixa?
- Hmf, detesto essas filas de três assentos. A poltrona do meio sempre vira terra-de-ninguém. - falou em voz alta, esperando que o dono da caixa se desculpasse e retirasse aquele incômodo objeto dali. Mas ninguém se manifestou.
Do lado de fora do aeroporto, Scarlet viu o avião decolar. Ia ficando cada vez menor, rumo ao destino do qual ela acabara de abrir mão. Olhou o sol vermelho.
- A caixa!
Scarlet havia escolhido um novo caminho. Sua caixa vermelha não.
E ela seguia, para onde Norma não havia deixado sua Scarlet ir, rumo à primeira escala da viagem.
- Senhor, poderia colocar sua bagagem de mão no compartimento superior ou embaixo da poltrona?
- Que bagagem? - retrucou Nicolas à comissária.
- A caixa, Senhor.
- Que caixa? - fazia-se de desentendido, enquanto suas bochechas assumiam a vermelhidão inegável da caixa.
- Esta ao seu lado, Senhor.
- Não... não é minha.
- É do Senhor? - dirigiu-se a aeromoça ao velho da janela. Ele se limitou a lançar-lhe uma fração de olhar e, carrancudo, negou com uma das mãos.
- Vou recolhê-la então, alguém deve tê-la esquecido - disse a aeromoça enquanto estendia suas mãos para a caixa.
- Espere! - Nicolas interceptou-a, protegendo a caixa.
- O que foi, senhor, algum problema?
- É minha.
- Como? - perguntou a comissária confusa.
- Minha, essa caixa. Minha mesmo, sabe?
- Mas o Senhor não...
- Desculpe - interrompeu-a, rindo nervosamente. É que eu... eu... estava com vergonha - sussurou para a aeromoça - imagina, carregar pra cima e pra baixo essa coisa... tão, tão acesa... vermelhona, não é? Não é à toa que eu a cobri com o paletó.
- Pois bem, Senhor. Poderia então guardá-la em um dos locais adequados? Vamos iniciar o procedimento de pouso.
- Tudo bem, tudo bem.
Nicolas enfiou apressadamente a caixa embaixo da poltrona. Enquanto regulava a fivela do cinto. tentava vasculhar a si mesmo à procura de alguma razão qualquer para o que havia acabado de fazer.
O barulho do motor do avião aumentou tanto que Nicolas, que estava a umas 10 filas da asa, quase ficou surdo. A arremetida foi violenta - depois se saberia que o pouso foi impedido por pombas na pista - e a caixa vermelha escorregou até o fundo do avião. Foi parada pela aeromoça com o pé, sentada em seu banco retrátil perto da porta. Finalmente, a caixa que Scarlet tinha jurado entregar estava em seu poder. O jogo ainda não tinha acabado.
"Senhores e senhoras passageiros, sejam todos bem-vindos a Cancún", anunciou o piloto.
A alegria e a descontração de quase todos os passageiros contrastava com o semblante sério de Nicolas.
E clima ensolarado-turístico da cidade não combinava nem um pouco com os três homens que aguardavam a sua chegada.
Ricardo, Antônio e Emanuel. Três companheiros de suruba que a muito não via. Tinha saído sem despedidas pela última vez, em Arraial do Cabo e esse reencontro guardava muitas mágoas do passado.
**************
Gisele tinha começado a trabalhar como aeromoça fazia três anos. Ela, que antes nunca tinha ido além das fronteiras do estado, agora já conhecia mais de 20 países. Disputava com outras colegas as melhores rotas da companhia aérea.
Queria Rio-Paris, Rio-Nova Iorque, Rio-Madri, Rio-Atenas, Rio-Todos os lugares do mundo com os quais sempre sonhou. Cancún fazia parte da lista e era sua primeira vez na cidade.
Como de costume, foi uma das últimas a sair do avião.
- Que caixa é essa, Gi?, perguntou Henry, comissário de bordo pernambucano que trabalhava com ela.
- Ah, são apenas umas bijuterias, respondeu, tentando despistar. Para interromper de vez a conversa, disse que precisava ir ao banheiro, assim que pisou no aeroporto.
No banheiro, guardou a caixa na mochila, imaginando que o homem de terno que alegara ser o dono do objeto ainda podia estar por ali.
Saiu caminhando rápido, em direção ao ponto de táxi. Alguns metros a frente, estava Nicolas, cercado pelos três amigos. Seu olhar cruzou com o de Gisele por alguns segundos. "A porra da caixa", pensou e deu um passo em direção a aeromoça.
Antônio o segurou com um abraço de segurança de boate.
- Porra, cara, faz tempo hein. Desde aquela viagem para Arraial. Lembra?
- Hotel Playa del Carmen, por favor.
- Sí, Señorita.
"Merda!", pensou Nicolas, enquanto dividia a atenção entre os colegas e o táxi que dali se afastava, virando à esquerda na primeira esquina.
ResponderExcluirNo carro, a moça recostou a testa no vidro para olhar a estrada, rebatendo com respostas monossílabas todas as tentativas do taxista para iniciar uma conversa. Se alguém a visse naquele momento jamais saberia o que se passava com ela. Naquele instante, nada poderia fazê-la emergir de seus pesamentos e despertar seu olhar vazio e disperso. Exceto o celular.
- Alô? - atendeu apressadamente
- ...
- Não estou ouvido. Quem é?
- ...
- Alô!
- ...
Desligou raivosa o telefone. A pressa em atender era tanta que nem chegou a ver o número que havia ligado. E foi com mais pressa ainda que ela vasculhou o telefone à procura da identificação da última chamada. E também rapidamente, veio a frustração: o número do telefone estava suprimido. Ela já imaginava quem seria e poderia ter toda a certeza do mundo sobre quem havia telefonado. Exceto por um detalhe: a caixa vermelha em sua mochila.